Diversidade e representatividade por uma sociedade mais inclusiva

Escrito por Rachel Botelho


Primeiramente, quero te fazer duas perguntas:  com quantos colegas com deficiência você estudou ao longo da sua vida escolar? Quantas vezes você encontrou uma pessoa com deficiência na rua e sua mãe mandou você não olhar porque era “feio olhar” ou por ser “falta de educação”?

Eu tinha acabado de voltar do meu trabalho. Cheguei em casa e aquelas duas pessoas pequeninas vieram ao meu encontro. A terapia do filhote tinha sido desmarcada. A vozinha infantil da minha filha me convidou para comer empadinhas. Como recusar?

Fomos para a lanchonete preferida das crianças, esperamos vagar uma mesa. Sentamos do lado de uma família composta pelos  avós e uma menina na faixa etária dos 5 anos. Os meus filhos estavam muito felizes. O meu pequerrucho com Transtorno do Espectro Autista fazia os seus gritinhos de alegria (hoje ele faz urros e balança as mãos).

As pessoas da mesa ao lado olhavam com os cantos de olhos. A menininha se levantou para ir em direção à nossa mesa e uma das avós a puxou de volta. Logo após o puxão, a menina abriu sua mochila e tirou várias bonequinhas. Olhava para as minhas crianças e a senhora mandou guardar e levantou-se com a neta e saíram para caminhar. A tentativa de fazer uma amizade passageira foi por água abaixo.

Naquele dia, a empadinha não foi tão apetitosa.

Hoje, como mãe de uma pessoa com deficiência, o meu maior desejo é que as crianças olhem e se aproximem das pessoas com deficiência. Que brinquem no parque com outras crianças sem julgar. Que façam perguntas para nós pais ajudarmos a construir conceitos sobre a deficiência.

Por que ele não fala? Por que ele balança as mãos? Por que que ele usa um tablete para se comunicar? Para que serve o aparelho auditivo? Para que serve a legenda na televisão? Para que serve aquela pessoa no cantinho da TV, fazendo sinais com a mão?


Quero que as crianças entendam a necessidade das rampas nos estabelecimentos e as vagas prioritárias. Que entendam o motivo de fazer a áudio descrição numa apresentação. Que compreendam a importância da foto descrição. Quero que não se surpreendam com a entrada de uma pessoa do sexo oposto acompanhada pelo responsável num banheiro público. Que reflitam a prioridade na hora de utilizar o banheiro de pessoas com deficiência. Que entendam as diferenças das bengalas (recentemente aprendi!) e que saibam para que serve uma traqueostomia e a GTT (gastrectomia).

Nós, pais, não precisamos ter todas as respostas, podemos procurar informações corretas para saciar a curiosidade dos nossos filhos, e ou deixarmos que se aproximem das pessoas para fazerem os seus questionamentos. O “não olhar” não ajudará na formação de uma sociedade melhor. Respostas incoerentes como “ele se comporta assim pois só tem tamanho e a cabeça é de bebê” ou dizer que a idade mental é de um bebê não nos ajudam.

Sugiro que permitam as perguntas curiosas, forneçam material que favoreça o conhecimento das crianças. Procure por livros, desenhos animados e brinquedos que apresentem uma diversidade de indivíduos, cada qual com a sua característica: com ou sem burca, com ou sem bengala, com ou sem cadeira de rodas, com ou sem óculos escuros…

As representatividades nesses conteúdos apoiam a construção da sociedade inclusiva que nós familiares de pessoas com deficiência tanto estamos buscando. Dessa forma, adquirindo conteúdos com representatividade, todas as famílias de crianças com ou sem deficiência estarão nos ajudando a construir uma sociedade inclusiva.

Prefira conteúdos que possuam representatividade, deixo algumas sugestões:

Acredito que há mais temas importantes a serem refletidos e abordados para além da deficiência para termos diversidade e representatividade, como etnia e gênero. E lembre-se quando a sociedade aceita a multiplicidade, a inclusão acontece naturalmente. Afinal, nós somos a sociedade!


RACHEL BOTELHO

Rachel é brasilense, mãe de duas crianças, uma delas tem o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista. Possui graduação em Pedagogia, Psicologia e pós-graduação em Neuropsicologia. Sempre trabalhou com Educação Especial na sua cidade natal. Já residiu em Washington e em Santiago do Chile, cidades onde seu filhos nasceram. Desde o início do ano de 2018 mora com sua família em Los Angeles. Adora fazer novas amizades, viajar em família, realizar trabalhos voluntários, ler livros, e fazer cursos na área de Educação Especial. Atualmente dedica-se à criação dos filhos e à sua formação profissional. Rachel gosta de compartilhar suas experiências maternas e inclusivas com outras famílias que possuem filhos com necessidades educativas especiais.